A Poética dos Encontros

A exposição virtual “A Poética dos Encontros” apresenta fotos, textos, ilustrações e vídeos produzidos durante a realização do projeto com as crianças da Escola de Dança de São Paulo e as do Instituto de Cegos Padre Chico, que de forma interativa, levam os diálogos estabelecidos pelo projeto para um espectro mais abrangente.

Desenvolvida pelo Lagartixa na Janela, dirigido por Uxa, com recursos oriundos da 19ª edição do Programa de Fomento à Dança da Secretaria Municipal de Cultura da cidade de São Paulo, a iniciativa buscou descobrir novos sentidos no imaginário artístico a partir de dois potentes encontros das performers do grupo com turmas distintas de crianças: as do curso livre da Escola de Dança de São Paulo e as do Instituto de Cegos Padre Chico, deficientes visuais em sua grande maioria.

As crianças foram motivadas a partir da mesma referência poética:  a criação de movimentos criados a partir do diálogo com os elementos e objetos relacionais que integram a performance “Varal de Nuvens” – vento, tecidos, gravetos e sinos, e da relação das crianças com as performers – o que fez, a partir daí, expandir novas percepções do próprio corpo e da dança.

O embrião do projeto surgiu em duas apresentações de “Varal de Nuvens” (2014) no parque Ibirapuera, promovidas pelo Museu da Dança (MUD) em parceria com Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), em maio e junho de 2015, dentro da ação “Em movimento – dança e acessibilidade”, voltada à inclusão de pessoas com deficiência na cena cultural.

O mais recente trabalho do grupo, “Varal de Nuvens” utiliza elementos como tecidos, sinos e gravetos para dialogar com o movimento do vento e das nuvens em meio a espaços públicos, como praças e parques. Essa foi a primeira vez que a obra teve acompanhamento de audiodescrição, responsável por criar imagens das cenas para deficientes visuais a partir de informações sonoras do que se desenha à sua frente.

“Eu já tinha assistido a um trabalho de dança com esse recurso. Quando fomos convidados para esse projeto, me perguntei como seria conosco, porque nós não fazemos uma coreografia fechada, não estamos em um palco… A audiodescrição em nosso trabalho não pode ficar somente no plano da ação, mas sim dos percursos e sensações, o que deixou  um ponto de interrogação na gente”, explica Uxa.

Parte dessas dúvidas foram respondidas pela reação de um jovem cego, o estudante de artes cênicas Edgard Jacques, à obra. “Assisti ao número num grande parque da cidade de São Paulo, um lugar que, na perspectiva de um cego, dado o seu tamanho, sua imponência, pode parecer opressivo. Contudo, ao me deparar com a dança do grupo, tal hostilidade se perdeu. A sensação que carreguei para casa aquele dia foi a de que o lugar também a mim pertence, eu que não enxergo”, escreveu ele.

O depoimento chamou a atenção de Uxa, que ficou curiosa para entender como é o treinamento de corpo de alguém que não vê, mas consegue se virar sozinho. “Existe toda uma educação para esse corpo ler a cidade, ouvir os sinais e perceber muitas coisas, mas como seria isso com um trabalho que vai um pouco além, que tem a ver com sentidos e percepções?”, questiona a artista.

Em busca de compreender as frestas e intercessões existentes entre o corpo que enxerga e o que percebe o mundo sem a visão, nasceu o projeto “A Poética dos Encontros”, que teve sua base conceitual calcada na ideia de antiestrutura proposta pelo antropólogo britânico Victor Turner (1920-1983), para quem “as antiestruturas surgem quando acontece a liberação das capacidades humanas de cognição, afeto, volição, criatividade…”

A escolha das duas instituições para receber o projeto foi motivada justamente pelos contrastes socioculturais entre elas, apesar de abrangerem a mesma faixa etária entre 7 e 12 anos. A turma do curso livre da Escola de Dança de São Paulo é formada por meninos e meninas que ainda não ingressaram no curso regular da escola, mas demonstram interesse em ter uma educação formal em dança. Já a turma do Instituto de Cegos Padre Chico é composta, em sua maioria, por meninos com diferentes graus de deficiência visual e sem qualquer experiência corporal artística prévia.

Na primeira, foram realizados quatro encontros de três horas cada. Na segunda, oito encontros de duas horas. O planejamento foi o mesmo nos dois ambientes que propunha para as crianças a criação de movimentos articulados com as partituras da performance “Varal de Nuvens”, gerando novas percepções em suas corporalidades.

Na Escola de Dança, o Lagartixa na Janela pode ampliar a percepção junto às crianças, que o estudo da dança também pode ser um espaço de invenção e imaginação. “O nível de atenção e de presença deles era inacreditável. Foi legal proporcionar a descoberta de como uma obra de arte também pode se transformar em um material de estudo”, afirma Uxa.

Já a chegada do grupo no Instituto de Cegos Padre Chico proporcionou descobertas para as crianças participantes – em sua maioria meninos-, que puderam acessar a sala de dança da escola, até então exclusiva somente às meninas.

Para se preparar para as atividades, as artistas visitaram a exposição “Diálogo no Escuro”, em cartaz no Unibes Cultural, que simula a realidade de um deficiente visual ao colocar o visitante para passear em ambientes completamente sem luz. Depois em um laboratório do grupo, as performers guiaram umas às outras em um passeio às cegas por espaços públicos, como ruas e supermercados, e também dançaram “Varal de Nuvens” de olhos vendados. “Foi uma experiência intensa e muito reveladora para todas nós. Experimentar a relação com o espaço e tentar ler o entorno pela sonoridade, olfato e tato ampliou nosso repertorio corporal, pois as percepções de profundidade como alturas e distâncias foi bem difícil de perceber. Quando a gente constrói esse conhecimento no corpo como parte integrante de nosso repertório, aí sim conseguimos ter a percepção dessas noções, porque elas não vem de fora, mas de dentro”, lembra Uxa.  A experiência enriqueceu o que viria a seguir com as crianças do Instituto de Cegos Padre Chico.

“Tudo o que envolve a subjetividade do corpo – como aquele corpo responde a contatos e sonoridades – foi uma descoberta para aquelas crianças. Conseguimos acessar um lugar da imaginação que era quase inacessível para elas e descobrimos o quanto isso é potente no corpo”, atesta a diretora do grupo.

Esse ponto de convergência entre as duas experiências, apesar das particularidades de cada uma, marcou profundamente os artistas envolvidos no projeto, das performers Aline Bonamin, Barbara Schil, Suzana Bayona, Tatiana Cotrim e Thais Ushirobira, à fotógrafa Silvia Machado, ao ilustrador Pablo Romart e ao videomaker Osmar Zampieri.

“A gente já tinha algumas experiências dando aulas juntas como um grupo, e isso está se aprofundando agora. Não dá para fazer de conta de que você não vê, mas o que a gente construiu ali se dava no corpo, a partir do respeito, do carinho, do afeto e da curiosidade. Nesse momento, não faz diferença se a criança é cega ou não. Claro que tínhamos cuidado, mas elas mesmas se orientavam rápido, criavam referências e sinalizavam o espaço. É tudo criança, elas são universais, mas experimentar isso com aquela delicadeza, naquele espaço expandido, foi muito forte e nos colocou no mundo de um jeito diferente”, emociona-se Uxa.

No dia 03 de setembro de 2016, para o lançamento da exposição virtual, foi realizada a performance “Varal de Nuvens”, na área externa do MIS-SP, com mostra dos vídeos que compõem a exposição no auditório do MIS-SP.