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05/09/2017

O que é a dança para Lacan?


Artigo da psicanalista Maisa Aurora Marcos. 

 

Este texto é uma breve apresentação que nos permite aproximar da ideia de um dançar para o psiquiatra e psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981), embora ele não tenha falado diretamente desta arte. Sua concepção do que é o corpo na relação com o tempo, o espaço, a voz e o olhar nos leva a perceber o que é a dança e traçar um breve caminho para este entendimento.

Em concordância com Freud, Lacan nos diz que o campo da realidade psíquica é formado por imagens. O bebê, a partir dos seis meses, diante do espelho, fixa um aspecto da sua imagem. Essa transformação dá-lhe um domínio imaginário do seu corpo, ou seja, uma identificação, a matriz simbólica do Eu (Lacan, 1949, 1998). Nessa experiência, o bebê pede uma confirmação, pelo olhar, ao adulto, sobre o que ele percebe no espelho. Isso vem constituir, mais tarde, a vivência de seu corpo e supõe uma articulação complexa entre sua realidade orgânica e o “ver” e o “escutar” dos pais. Esse olhar não se confunde com a visão. Trata-se de uma forma particular de investimento libidinal, que permite aos pais ver e escutar o que ainda não está (2003). Essas ilusões inscrevem suas marcas, possibilitando ao bebê aceder à linguagem. A palavra da mãe dá sentido ao grito, ao desamparo, e inscreve-se no corpo do bebê, tornando-o sujeito de desejo.

O bebê é um parceiro ativo na interação com a mãe, e é nela que se constitui o seu psiquismo. A relação voz e ação materna (gestos) possibilita a ele um recorte desse ritmo (2004). Weill (1999) nos diz que a voz da mãe é recebida pelo bebê como um canto e que esta transmite a ele uma dupla vocação: a entrada num mundo novo (através da continuidade musical das vogais) que o bebê encontrará no instante em que soar a música; e a entrada no campo da lei (através da descontinuidade significante das consoantes) pelo qual ele irá discriminar todas as coisas. Mesmo que um corpo permaneça imóvel, ele será movido pela emergência desse empuxo que fará do corpo um corpo dançante: o movimento de seu pé ou de sua cabeça revelará que o sujeito é habitado por uma invocação. A invocação dançante é um movimento guiado que retira o sujeito da dependência do Outro*. Ao dançar, o sujeito irá se deslocar em direção a algum lugar (ponto azul), que se situa num porvir possível, aparecendo um novo sujeito, habitando, pelo movimento, esse novo espaço. Ao dançar, o sujeito pode se ultrapassar e atingir a “nota azul”, expressão utilizada por Delacroix em carta dirigida a Chopin (1999).

 

* Termo utilizado por Lacan para designar um lugar simbólico que determina o sujeito, ora de maneira interna a ele, ora de maneira intrassubjetiva em sua relação com o desejo (Roudinesco e Plon, 1998, p. 558).

 

Referências Bibliográficas:

CAVALCANTE, M. C. B. Ritmo no gesto e na voz: manipulando a língua com o bebê. In: O bebê, o corpo e a linguagem. Coleção 1ª infância. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.

DIDIER-WEILL, A. Invocações: Dionísio, São Paulo e Freud. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1999.

LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

LASNIK, M. C. Poderíamos pensar numa prevenção da síndrome autística? In: Palavras em torno do berço. Coleção de calças curtas, v.1. Salvador: Álgama, 2003.

ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

 

Maisa Aurora Marcos é psicanalista. Especialização em “Corpo: Dança, Teatro e Performance” pela FACH. Integrante do “Dança em Diálogo” (CCSP) e do “Corpo (en) Cena – SP – Estudos em Psicanálise e Dança” (Instituto APPOA e Casa Semio), coordenado pela psicanalista Dra. Angela Becker.

 

 

 

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